Sinopse: Winston, herói de 1984, último romance de George Orwell, vive aprisionado na engrenagem totalitária de uma sociedade completamente dominada pelo Estado, onde tudo é feito coletivamente, mas cada qual vive sozinho. Ninguém escapa à vigilância do Grande Irmão, a mais famosa personificação literária de um poder cínico e cruel ao infinito, além de vazio de sentido histórico. De fato, a ideologia do Partido dominante em Oceânia não visa nada de coisa alguma para ninguém, no presente ou no futuro. O’Brien, hierarca do Partido, é quem explica a Winston que 'só nos interessa o poder em si. Nem riqueza, nem luxo, nem vida longa, nem felicidade - só o poder pelo poder, poder puro.'
S
|
e George Orwell tivesse tido a oportunidade de viver até as
décadas de 1970, 80 e 90, teria visto momentos históricos, tais como a corrida
espacial, a queda da União Soviética, o processo de mundialização do capital, a
ascensão da economia capitalista chinesa, entre outros. Ele talvez aludisse ao
Grande Irmão o nome de Mercado, este sempre onisciente, onipresente e
onipotente.
Se George Orwell vivesse os tempos atuais, de certo refletiria que
se o Mercado é o Grande Irmão, a mercadoria, objetiva e concreta, é o Partido.
E se o ser humano é inútil ao Mercado, ou seja, não consegue adequar-se a ele,
servi-lo de corpo, alma e coração; se não serve ao menos como mercadoria, esse
ser humano não existe. “’Você não existe’, disse O’Brien” (p. 303).
Se George Orwell visse que no mundo de hoje o terrorismo é
utilizado como subterfúgio para expandir o mercado em crise; se lesse jornais e
revistas, entenderia que o estado de terror e medo é constantemente aflorado
nas pessoas. O ódio ao diferente, à intolerância para com os mais fracos; a
forte oposição aos levantes populares, manifestações seja contra uma ditadura
política ou a ditadura do mercado que encarece o preço daquilo que é primário
para a vida nas grandes cidades. Se ele estivesse vivo, veria homens fardados e
com botinas pretas, portando cassetetes, máscaras e armas, combatendo o
desequilíbrio social e protegendo o templo sagrado da propriedade privada.
Veria homens a cavalo, de helicópteros e "caveirões" combatendo o
tráfico de drogas, mas também desocupando de forma arbitrária e brutal a região
do Pinheirinho-SP. Para manter a paz, a guerra seria a solução. Se a paz exige
uma ditadura, a guerra instaurará a ditadura. Mas se exige democracia, a guerra
abrirá os caminhos. A guerra consumirá o corpo, a mente e o coração. Guerra é Paz.
Se George Orwell perguntasse aos cidadãos de países democráticos
capitalistas por que temem tanto o socialismo ou aos cidadãos brasileiros, os
médicos cubanos, eles responderiam que no socialismo não há liberdade. Muitos
fariam até uma exaltação à liberdade do indivíduo no mundo capitalista e
recriminariam Fidel e a pobreza de Cuba. Aludiriam aos médicos cubanos à
condição de escravos. Em redes sociais, cada um exaltaria seu poder de compra,
o consumo desenfreado de mercadorias, a possibilidade de consumir produtos de
marcas famosas e com preços abusivos, e não encontrariam contradições ou
visualizariam a exploração da força de trabalho presente numa peça de roupa,
num brinquedo ou automóvel. Não compreenderiam que a liberdade os torna
escravos, mas que também a escravidão os torna livres. Liberdade é Escravidão.
Se George Orwell criasse um perfil nas redes sociais, adicionasse
uns amigos e participasse de grupos de discussão ou lesse comentários de
reportagens postadas em sítios de grandes empresas de comunicação, veria que
hoje a população está conectada, que o mundo está menor, as distâncias são
encurtadas; veria que crianças e adolescentes leem mais, ficam mais tempo na
escola e chegam à universidade de alguma forma. Veria que guerras e protestos
são televisionados ao vivo para quem quiser acompanhar. Saberia que a
informação chega a todos. A notícia corre o mundo em segundos. Sobretudo, ele
veria que as pessoas sabem mais ao mesmo tempo em que sabem menos. A contradição
do duplipensamento estaria mais atualizada do que nunca. Duas crenças viveriam
lado a lado, oporiam-se uma a outra, ao mesmo tempo em que se tornariam ambas
legítimas. A ignorância permaneceria como a arma mais poderosa, pois ela
consome a energia não só do corpo e da mente, mas principalmente do coração de
homens e mulheres. O coração; o amor na crença de que 2+2 são 5, ou que o
sistema é imutável, que as regras são essas; e de que esse é o fim da História.
O amor desenfreado aos deuses da moda, do individualismo, do consumo, do ter,
do fazer e do poder. Essa força, essa crença indubitável que nos faz aceitar,
defender e até lutar por causas que, na maioria das vezes, não são as nossas. A
ignorância, movida pelas paixões, é o que legitima o grande algoz. Ignorância é Força.
Se George Orwell vivesse esse tempo, com certeza escreveria um
"spin-off" de seu clássico.
Recomendo a leitura.

Nenhum comentário:
Postar um comentário