sábado, 12 de janeiro de 2013

Morte Súbita, J. K. Rowling - As contradições de uma tragédia inglesa

Bem vindos ao blog Um livro depois de lido. Aqui irei postar minhas impressões sobre as leituras que fiz e farei. Começo com Morte Súbita, de J. K. Rowling, autora da série Harry Potter. Por eu ser fã da saga do bruxinho, o livro imperdível para as férias era o lançamento da autora. Terminei de ler faz algumas horas e é com ele que dou início ao blog. Espero que gostem e comentem! 



M
orte Súbita (512 páginas), de J. K. Rowling, publicado em 2012, pela Editora Nova Fronteira, de gênero ficcional contemporâneo, é uma obra composta em sete partes, entre eles, a Parte Sete, intitulada: “Combate à pobreza”. Esse último elemento que encerra a narrativa possui poucas páginas friamente escritas no sentido, creio eu, de exemplificar no romance, que a palavra morte vai além da definição literal de “fim da vida”.

Na obra, Rowling nos apresentou a tragédia da desigualdade social, do ponto de vista inglês, sobre diversas manifestações da questão social: desemprego, vícios, tráfico de drogas, violências, falta de moradia etc. Também nos mostrou os contornos de uma sociedade mergulhada no conservadorismo, na hipocrisia, defensora da “moral e dos bons costumes” e fortemente influenciada pela mídia burguesa.

Vemos que os cidadãos de direitos são aqueles residentes em Pagford, que colhem os frutos de seu trabalho árduo e gozam de uma vida organizada. Os marginalizados residem em Fields e são naturalmente preguiçosos, criadores de suas próprias desgraças e dependentes de políticas sociais do Estado, essas que, do outro lado do Atlântico, também são ineficazes e mal geridas pelos representantes do povo.  Isso podia ser um resumo caricato de romances trágicos com finais felizes, se não fosse a concretude das inúmeras situações vividas pelas personagens de Rowling, tão vistas e ignoradas por nós diariamente no Brasil e no restante do mundo.

A vacância no Conselho Distrital de Pagford, causada pela morte súbita de Barry Fairbrother, não passa de um pontapé para nos introduzir nas contradições do pacato vilarejo de poucos habitantes. Assim, vemos que a criminalização da pobreza era, no Conselho, um fator central da disputa política entre Barry e Howard Mollison e que iria se tornar pauta para os candidatos à eleição pela vaga deixada pelo falecido.


Barry, como foi descrito, era um sujeito que tinha uma vida organizada com sua família nuclear, possuía condições financeiras para garantir qualidade de vida à esposa e aos filhos, e carisma para defender suas posições políticas. Ele que nasceu em Fields -  bairro periférico de conjuntos habitacionais, lugar onde residem pessoas com baixa renda per capita, baixa escolaridade e subempregos, mais suscetíveis, por exemplo, à violência do tráfico de drogas - havia conseguido destacar-se entre os demais. A partir da educação buscou melhorar suas condições de vida e tornar-se igual no mundo dos “bons”, no mundo “dos cidadãos de bem”.

Portanto, para Barry, manter Fields como parte de Pagford era uma maneira de lutar para que outras vidas daquele lugar conseguissem mudar o rumo de suas histórias, para além das tragédias anunciadas todos os dias pelos telejornais e nas páginas vermelhas dos jornais: homicídios, abusos sexuais, violência doméstica, uso e tráfico de drogas, prisões. A clínica de reabilitação localizada também em Fields, cujo prédio pertencia à Pagford, significava a fé naquelas pessoas e na capacidade delas de reverterem os infortúnios a que foram determinados historicamente. Krystal Weedon, moradora de Fields, representava os motivos dele lutar: enquanto houver vida, há esperança.

Todavia, muitas vezes, mortes são causadas sem haver o literal “fim da vida”. Para pessoas como Howard Mollison, conselheiro junto com Barry, Fields significava a parte negativa de tudo que mais adorava em Pagford: a aparência da ética, da moral, da vida direita. Na verdade, tudo que havia ali eram discursos permeados de preconceitos e senso comum, que seguem para a criminalização da pobreza e negação da cidadania. Para Howard e seus aliados, os marginalizados de Fields agrediam seus ideais de cidadania. E, quando  os segredos daqueles que tentaram dar continuidade ao trabalho do falecido Barry suplantou as tragédias dos moradores de Fields, observamos claramente que a morte súbita de muitos é causada pela posição política de alguns.

Essa ficção está realmente recheada de personagens e situações caricatas? Quantos padecem diariamente diante de ideologias conservadoras que dominam a sociedade?  E, o quanto nossas famílias também são abarcadas nessa dura realidade? Afinal, também somos engolidos pela realidade de violência, desemprego, tráfico de drogas, falta de moradia, de educação, saúde, mesmo que indiretamente.

Por fim, o romance ficcional de J. K. Rowling nos mostra, repito, pelo modo inglês de ver o mundo, uma sociedade em processo de destruição da vida. No mais pacato dos lugares existe violência doméstica, abuso sexual, negligência e abandono, submissão, racismo, intolerância religiosa, indiferença ao outro, desemprego, ineficácia das políticas sociais públicas, que atingem desde famílias de Pagford a famílias que vivenciam mais diretamente as manifestações da questão social, em Fields.  Os segredos revelados dos moradores de Pagford são o contraste da vida aberta da família de Krystal Weedon, conhecida por assistentes sociais, pela escola, pela clínica de reabilitação e vizinhança.

Dessa forma, a obra nos permitiu conhecer um lado da mente tão fantasiosa de Rowling, que enxerga com clareza os problemas da sociedade em que vivemos e que precisamos ter mais Barrys para fazer oposição às mentes conservadoras do nosso tempo, porque uma vacância pode significar a morte súbita de muitas vidas que padecem a nossa margem.

Eu recomendo o livro e admiro ainda mais J. K. Rowling, uma escritora talentosa não por um gênero, e sim por saber humanizar suas personagens e nos obrigar a uma identificação com uma ou muitas personagens. Morte Súbita talvez não seja considerada no futuro uma grande obra da autora, mas, posso afirmar, é com certeza uma obra humana, tocante e expositora das contradições da sociedade. O modo frio e calculista como foi concluída, somente reforça a atualidade do que foi escrito e a necessidade urgente de mudarmos essa realidade. Dessa vez, não cabia a Rowling dizer que “tudo estava bem”, porque realmente não estava e não está.

Outras considerações

  • Sobre a tradução: Ficou boa e não encontrei frases confusas nem erros de português. Alguns termos em inglês foram mantidos, o que me incomodou um pouco. Mas, no geral ficou muito boa. Manter o nome das cidades no idioma original também me agradou. 
  • Ponto negativo sobre a tradução: Na leitura, por duas vezes, encontrei o termo "denegrir". Não sei como está no original, e acredito que os tradutores poderiam ter escolhido outro sinônimo. Contudo, pode ser que eles tentaram assim nos permitir enxergar mais o racismo presente naquela comunidade. 
  • Sobre a narrativa: Já li e vi em alguns vídeos resenhas que avaliaram o livro como cansativo nas 100 e/ou 200 páginas, e também pessoas que não gostaram da forma como foi dividido. Eu achei muito legal a forma de dividir o livro, sem aprofundar diretamente em uma personagem ou família, pois assim o envolvimento com a comunidade de Pagford foi muito mais fácil. Entender Pagford se tornou mais fácil. 
  • A capa do livro só é entendida após a leitura, bem como a sinopse. J. K. Rowling não nos permitiu clareza do que se tratava obra, garantindo o suspense e as surpresas. 
  • O título em português me agradou e muito. A "Morte Súbita" não se refere diretamente à Barry nem a nenhuma morte em sentido literal.
  • Adorei ver novamente a capacidade de J. K. Rowling escrever sobre adolescentes. É um ponto forte.
  • Sobre o uso da internet: Depois de um certo número de "ataques", eu fiquei incomodada. Afinal, estamos falando de um lugar onde todos se conhecem. Não sei se seria tão fácil assim. 
  • Dei 4 estrelas no Skoob, porque apesar do livro ser ótimo, os problemas ali apresentados continuam muito verossímeis. 
  • Não tem nada a ver com Harry Potter. Devemos ler sem muitas expectativas - não que eu as tivesse anteriormente - mas, aos fãs mais novinhos e fanáticos, digo: não esperem muito. Não há magia em Pagford!



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Informações sobre o livro:

Autor: J. K. Rowling

País: Reino Unido
Idioma Original: Inglês
Gênero: Ficcção Contemporânea
Editora: Nova Fronteira
Data de publicação: 27 de Setembro de 2012
Páginas: 512


4 comentários:

  1. Gostei bastante da sua resenha, também vi muitas pessoas falando que o livro é cansativo e tudo mais, na minha opinião esses comentários sairam de pessoas que ainda estavão muito "apegadas" a série Harry Potter e esperavam algo tão "intenso" quanto, quem sabe alguns feitiços durante o livro. Mas ele é intenso, de uma forma diferente mas é! Os personagens são incríveis, um mais misterioso que o outro, e ela toca na ferida falando de uma política "desajustada"(se posso dizer assim) que de certa forma ainda faz parte da Inglaterra.

    Parabéns pela resenha e muito boa sorte com o blog!

    http://13livros.blogspot.com.br

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    1. Olá Marcelo. Muito obrigado pela visita e feedback. Adorei seu comentário. Sim, acho que o mais difícil são os fãs entenderem que o gênero não tem nada a ver com Harry Potter. Mas, penso que nosso maior sonho é que a J. K. volte a escrever sobre a saga, né?! Por um lado é bom ela escrever sobre coisas diferentes, por outro, fica aquele sentimento de quero mais sobre Harry Potter! rs

      Estou seguindo seu blog também. Abraços!

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    2. Quem nos dera ter o prazer de ler outros livros da saga, Harry Potter faz muita falta! Vi em um site de notícias que ela declarou que provavelmente irá escrever mais livros relacionados ao assunto, pois nos livros do Harry ela focou a história em Hogwarts e não teve a possibilidade de nos apresentar outras coisas do mundo bruxo, e isso ela faria em algum dos próximos livros. Quem sabe né? Seria incrível!

      Uma dica de livro que te dou é A Arma Escarlate da Renata Ventura, não sei se você já o conhece, é uma história semelhante a Harry Potter mas com aspéctos bem brasileiros. É um ótimo livro pra quem quer voltar ao mundo da magia hahahaha!
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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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