Bem vindos ao blog Um livro depois de lido. Aqui irei postar minhas impressões sobre as leituras que fiz e farei. Começo com Morte Súbita, de J. K. Rowling, autora da série Harry Potter. Por eu ser fã da saga do bruxinho, o livro imperdível para as férias era o lançamento da autora. Terminei de ler faz algumas horas e é com ele que dou início ao blog. Espero que gostem e comentem!
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orte Súbita (512 páginas), de J. K. Rowling,
publicado em 2012, pela Editora Nova Fronteira, de gênero ficcional
contemporâneo, é uma obra composta em sete partes, entre eles, a Parte Sete,
intitulada: “Combate à pobreza”. Esse último elemento que encerra a narrativa
possui poucas páginas friamente escritas no sentido, creio eu, de exemplificar
no romance, que a palavra morte vai além da definição literal de “fim da vida”.
Na obra, Rowling nos apresentou a tragédia da desigualdade social, do
ponto de vista inglês, sobre diversas manifestações da questão social:
desemprego, vícios, tráfico de drogas, violências, falta de moradia etc. Também
nos mostrou os contornos de uma sociedade mergulhada no conservadorismo, na
hipocrisia, defensora da “moral e dos bons costumes” e fortemente influenciada
pela mídia burguesa.
Vemos que os cidadãos de direitos são aqueles residentes em Pagford, que
colhem os frutos de seu trabalho árduo e gozam de uma vida organizada. Os
marginalizados residem em Fields e são naturalmente preguiçosos, criadores de
suas próprias desgraças e dependentes de políticas sociais do Estado, essas
que, do outro lado do Atlântico, também são ineficazes e mal geridas pelos
representantes do povo. Isso podia ser um resumo caricato de romances
trágicos com finais felizes, se não fosse a concretude das inúmeras situações vividas
pelas personagens de Rowling, tão vistas e ignoradas por nós diariamente no
Brasil e no restante do mundo.
A vacância no Conselho Distrital de Pagford, causada pela morte súbita
de Barry Fairbrother, não passa de um pontapé para nos introduzir nas
contradições do pacato vilarejo de poucos habitantes. Assim, vemos que a
criminalização da pobreza era, no Conselho, um fator central da disputa
política entre Barry e Howard Mollison e que iria se tornar pauta para os
candidatos à eleição pela vaga deixada pelo falecido.
Barry, como foi descrito, era um sujeito que tinha uma vida organizada
com sua família nuclear, possuía condições financeiras para garantir qualidade
de vida à esposa e aos filhos, e carisma para defender suas posições políticas.
Ele que nasceu em Fields - bairro periférico de conjuntos habitacionais,
lugar onde residem pessoas com baixa renda per capita, baixa escolaridade e
subempregos, mais suscetíveis, por exemplo, à violência do tráfico de drogas -
havia conseguido destacar-se entre os demais. A partir da educação buscou
melhorar suas condições de vida e tornar-se igual no mundo dos “bons”, no mundo
“dos cidadãos de bem”.
Portanto, para Barry, manter Fields como parte de Pagford era uma
maneira de lutar para que outras vidas daquele lugar conseguissem mudar o rumo
de suas histórias, para além das tragédias anunciadas todos os dias pelos
telejornais e nas páginas vermelhas dos jornais: homicídios, abusos sexuais,
violência doméstica, uso e tráfico de drogas, prisões. A clínica de
reabilitação localizada também em Fields, cujo prédio pertencia à Pagford,
significava a fé naquelas pessoas e na capacidade delas de reverterem os
infortúnios a que foram determinados historicamente. Krystal Weedon, moradora
de Fields, representava os motivos dele lutar: enquanto houver vida, há
esperança.
Todavia, muitas vezes, mortes são causadas sem haver o literal “fim da
vida”. Para pessoas como Howard Mollison, conselheiro junto com Barry, Fields
significava a parte negativa de tudo que mais adorava em Pagford: a aparência
da ética, da moral, da vida direita. Na verdade, tudo que havia ali eram discursos permeados de
preconceitos e senso comum, que seguem para a criminalização da pobreza e
negação da cidadania. Para Howard e seus aliados, os marginalizados de Fields
agrediam seus ideais de cidadania. E, quando os segredos daqueles que
tentaram dar continuidade ao trabalho do falecido Barry suplantou as tragédias
dos moradores de Fields, observamos claramente que a morte súbita de muitos é
causada pela posição política de alguns.
Essa ficção está realmente recheada de personagens e situações
caricatas? Quantos padecem diariamente diante de ideologias conservadoras que
dominam a sociedade? E, o quanto nossas famílias também são abarcadas
nessa dura realidade? Afinal, também somos engolidos pela realidade de
violência, desemprego, tráfico de drogas, falta de moradia, de educação, saúde,
mesmo que indiretamente.
Por fim, o romance ficcional de J. K. Rowling nos mostra, repito, pelo
modo inglês de ver o mundo, uma sociedade em processo de destruição da vida. No
mais pacato dos lugares existe violência doméstica, abuso sexual, negligência e
abandono, submissão, racismo, intolerância religiosa, indiferença ao outro,
desemprego, ineficácia das políticas sociais públicas, que atingem desde
famílias de Pagford a famílias que vivenciam mais diretamente as manifestações
da questão social, em Fields. Os segredos revelados dos moradores de
Pagford são o contraste da vida aberta da família de Krystal Weedon, conhecida
por assistentes sociais, pela escola, pela clínica de reabilitação e
vizinhança.
Dessa forma, a obra nos permitiu conhecer um lado da mente tão
fantasiosa de Rowling, que enxerga com clareza os problemas da sociedade em que
vivemos e que precisamos ter mais Barrys para fazer oposição às mentes
conservadoras do nosso tempo, porque uma vacância pode significar a morte
súbita de muitas vidas que padecem a nossa margem.
Eu recomendo o livro e admiro ainda mais J. K. Rowling, uma escritora
talentosa não por um gênero, e sim por saber humanizar suas personagens e nos
obrigar a uma identificação com uma ou muitas personagens. Morte Súbita talvez
não seja considerada no futuro uma grande obra da autora, mas, posso afirmar, é
com certeza uma obra humana, tocante e expositora das contradições da
sociedade. O modo frio e calculista como foi concluída, somente reforça a
atualidade do que foi escrito e a necessidade urgente de mudarmos essa
realidade. Dessa vez, não cabia a Rowling dizer que “tudo estava bem”, porque
realmente não estava e não está.
Outras considerações
- Sobre a tradução:
Ficou boa e não encontrei frases confusas nem erros de português. Alguns
termos em inglês foram mantidos, o que me incomodou um pouco. Mas, no
geral ficou muito boa. Manter o nome das cidades no idioma original também
me agradou.
- Ponto negativo
sobre a tradução: Na leitura, por duas vezes, encontrei o termo "denegrir".
Não sei como está no original, e acredito que os tradutores poderiam ter
escolhido outro sinônimo. Contudo, pode ser que eles tentaram assim nos
permitir enxergar mais o racismo presente naquela comunidade.
- Sobre a narrativa:
Já li e vi em alguns vídeos resenhas que avaliaram o livro como cansativo
nas 100 e/ou 200 páginas, e também pessoas que não gostaram da forma como
foi dividido. Eu achei muito legal a forma de dividir o livro, sem
aprofundar diretamente em uma personagem ou família, pois assim o
envolvimento com a comunidade de Pagford foi muito mais fácil. Entender
Pagford se tornou mais fácil.
- A capa do livro só
é entendida após a leitura, bem como a sinopse. J. K. Rowling não nos
permitiu clareza do que se tratava obra, garantindo o suspense e as
surpresas.
- O título em
português me agradou e muito. A "Morte Súbita" não se refere
diretamente à Barry nem a nenhuma morte em sentido literal.
- Adorei ver novamente
a capacidade de J. K. Rowling escrever sobre adolescentes. É um ponto
forte.
- Sobre o uso da
internet: Depois de um certo número de "ataques", eu fiquei
incomodada. Afinal, estamos falando de um lugar onde todos se conhecem.
Não sei se seria tão fácil assim.
- Dei 4 estrelas no Skoob,
porque apesar do livro ser ótimo, os problemas ali apresentados continuam
muito verossímeis.
- Não tem nada a ver
com Harry Potter. Devemos ler sem muitas expectativas - não que eu as
tivesse anteriormente - mas, aos fãs mais novinhos e fanáticos, digo: não
esperem muito. Não há magia em Pagford!
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Informações sobre o livro:
Autor: J. K. Rowling
País: Reino Unido
Idioma Original: Inglês
Gênero: Ficcção Contemporânea
Editora: Nova Fronteira
Data de publicação: 27 de Setembro de 2012
Páginas: 512

Gostei bastante da sua resenha, também vi muitas pessoas falando que o livro é cansativo e tudo mais, na minha opinião esses comentários sairam de pessoas que ainda estavão muito "apegadas" a série Harry Potter e esperavam algo tão "intenso" quanto, quem sabe alguns feitiços durante o livro. Mas ele é intenso, de uma forma diferente mas é! Os personagens são incríveis, um mais misterioso que o outro, e ela toca na ferida falando de uma política "desajustada"(se posso dizer assim) que de certa forma ainda faz parte da Inglaterra.
ResponderExcluirParabéns pela resenha e muito boa sorte com o blog!
http://13livros.blogspot.com.br
Olá Marcelo. Muito obrigado pela visita e feedback. Adorei seu comentário. Sim, acho que o mais difícil são os fãs entenderem que o gênero não tem nada a ver com Harry Potter. Mas, penso que nosso maior sonho é que a J. K. volte a escrever sobre a saga, né?! Por um lado é bom ela escrever sobre coisas diferentes, por outro, fica aquele sentimento de quero mais sobre Harry Potter! rs
ExcluirEstou seguindo seu blog também. Abraços!
Quem nos dera ter o prazer de ler outros livros da saga, Harry Potter faz muita falta! Vi em um site de notícias que ela declarou que provavelmente irá escrever mais livros relacionados ao assunto, pois nos livros do Harry ela focou a história em Hogwarts e não teve a possibilidade de nos apresentar outras coisas do mundo bruxo, e isso ela faria em algum dos próximos livros. Quem sabe né? Seria incrível!
ExcluirUma dica de livro que te dou é A Arma Escarlate da Renata Ventura, não sei se você já o conhece, é uma história semelhante a Harry Potter mas com aspéctos bem brasileiros. É um ótimo livro pra quem quer voltar ao mundo da magia hahahaha!
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Este comentário foi removido pelo autor.
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